Ataques a comunicadoras revelam um problema de estrutura

É preciso criar condições para que iniciativas locais tenham financiamento, estrutura e capacidade de permanecer nos territórios

No dia 24 de julho, Marcos Wesley, cofundador do Tapajós de Fato (PA), publicou em sua página no Instagram um vídeo em que relatava uma sequência de ameaças e episódios de censura sofridos por ele e pela equipe do veículo.

No vídeo, Marcos enumera episódios que, infelizmente, deixaram de ser exceção para quem faz comunicação independente na Amazônia: espingardas e revólveres apontados para si e para integrantes da equipe durante coberturas, ataques digitais, campanhas de difamação e sucessivas ameaças de morte, especialmente durante as eleições locais de 2022. “Estamos novamente em ano eleitoral e novamente diversos ataques voltaram a acontecer”, relata Marcos.

Em junho deste ano, outro episódio chamou atenção. A conta do Tapajós de Fato no Instagram permaneceu suspensa por mais de 40 dias pela Meta, sem qualquer justificativa pública. Para um veículo cuja principal forma de distribuição de conteúdo depende das plataformas digitais, o bloqueio significou não apenas perda de audiência, mas também dificuldades para manter o diálogo cotidiano com as comunidades que acompanha.

O caso do Tapajós de Fato não é isolado. Em maio deste ano, depois de quatro anos de uma batalha judicial, Tero Queiroz, diretor de jornalismo e fundador do TeatrineTV foi absolvido, em primeira instância, das acusações de calúnia e difamação motivadas pela publicação de uma nota informativa sobre recursos públicos destinados a uma Oscip responsável pela gestão de festivais culturais no estado.

Mesmo quando termina em absolvição, um processo pode consumir anos de trabalho, recursos financeiros e energia emocional. Custos que recaem de maneira especialmente pesada sobre pequenos veículos e coletivos locais.

A cofundadora e diretora-executiva do Instituto Tornavoz, Charlene Nagae, a coerção jurídica, principalmente de políticos e empresários,segue sendo estratégia recorrente para intimidar comunicadores e restringir a circulação de informações de interesse público.

“Embora o campo tenha obtido vitórias relevantes no STF, que reconheceu a existência do assédio judicial e estabeleceu mecanismos de mitigação, ainda temos o desafio de fazer com que os juízes de primeira e segunda instâncias apliquem esses entendimentos na prática”, aponta Nagae. Em ano eleitoral, a prática costuma se intensificar. “Em territórios periféricos e no interior do país, onde o jornalismo já opera no limite da sobrevivência, um único processo basta para amedrontar o comunicador e secar o debate público no momento em que a sociedade mais precisa de informações livres”, fala.

Quando olhamos para recortes interseccionais, o cenário fica ainda mais sensível. Mulheres comunicadoras, jornalistas negras, indígenas e pessoas LGBTQIAPN+ convivem com camadas adicionais de exposição. Ataques misóginos, violência sexualizada nas redes sociais, ameaças direcionadas às famílias e perseguições que exploram marcadores de gênero, raça e orientação sexual passaram a integrar o cotidiano de muitas profissionais. Como destaca a Artigo 19, reconhecer essas desigualdades é condição para construir políticas de proteção efetivas.

As respostas a esse cenário vêm sendo construídas  por uma rede crescente de organizações. Elas monitoram violações, oferecem apoio jurídico e psicossocial, produzem protocolos de segurança, acompanham casos de perseguição e articulam respostas coletivas diante de situações de risco, fortalecendo a incidência por políticas públicas mais efetivas. 

Esse trabalho é fundamental. Mas proteger quem comunica não significa apenas responder às ameaças quando elas acontecem. 

Arte é Informação em São Paulo.

Em muitos casos, a vulnerabilidade não decorre apenas da violência direta, mas da fragilidade institucional. Pequenas equipes acumulam funções, dependem de uma única fonte de financiamento, encontram dificuldades para responder a processos judiciais, investir em segurança digital ou planejar o longo prazo.  

É nesse ponto que fortalecimento institucional e proteção deixam de ser agendas separadas.

O relatório prospectivo “Como será o jornalismo no Brasil em 2035?“, produzido pela Repórteres Sem Fronteiras em parceria com organizações brasileiras, identifica justamente o fortalecimento de redes de colaboração e a diversificação dos modelos de sustentabilidade como estratégias para tornar o ecossistema da informação mais resiliente. 

Essa compreensão orienta o trabalho da Énois. Mais do que apoiar a produção de reportagens, investimos no fortalecimento institucional de organizações de comunicação, desenvolvendo planejamento estratégico, sustentabilidade financeira, governança, redes de colaboração e capacidade de responder aos desafios cotidianos de seus territórios.

Nosso trabalho parte das necessidades identificadas por cada organização, reconhecendo que proteger quem comunica também passa por fortalecer sua autonomia e sua capacidade de permanecer nos territórios.

Toda vez que uma iniciativa local consegue permanecer de pé, fortalece não apenas o ecossistema da informação, mas também a capacidade das comunidades de compreender, registrar e transformar a própria realidade.

Quando a arte fortalece o direito à informação: os caminhos do Arte é Informação

A arte produz conhecimento. Ela preserva memórias, amplia repertórios, cria espaços de encontro e fortalece formas coletivas de compreender e transformar a realidade. Nas periferias, onde cultura, comunicação e organização comunitária caminham juntas, a produção artística também é uma forma de produzir informação, fortalecer vínculos e mobilizar pessoas em torno dos desafios comuns do território.

Foi dessa compreensão que a Énois idealizou o Arte é Informação, projeto realizado para aproximar arte, comunicação comunitária e direito à informação. Ao longo de meses, artistas, comunicadores e produtores culturais das periferias de São Paulo participaram de formações, desenvolveram pesquisas em seus territórios e criaram obras que discutem alimentação, clima e os saberes produzidos pelas próprias comunidades. O projeto buscou fortalecer pessoas, criar conexões e ampliar as possibilidades de atuação de quem já produz cultura nas periferias.Os resultados ajudam a contar essa história.

Foram 62 artistas e comunicadores participando das formações, 10 projetos artísticos desenvolvidos, 82 obras produzidas, 40 profissionais contratados durante a execução do projeto, e pouco mais de R$ 330 mil reais destinados diretamente à realização das atividades e à remuneração de artistas e fornecedores. A Énois também produziu mais de 2 mil exemplares do livro Arte é Informação, dos quais 1.600 já foram distribuídos gratuitamente. Mas os números contam apenas parte da história.

Durante a formação aberta, realizada entre março e abril, participantes compartilharam experiências, discutiram produção cultural e trocaram ferramentas para transformar ideias em projetos possíveis. Para muitas pessoas, o percurso foi também um momento de reconhecer a própria trajetória.

“Conteúdos válidos para a reflexão da construção dos projetos. Como entender seus próprios desejos, como estruturá-los, como precificá-los, tudo isso foi de extrema importância pra minha formação enquanto produtora”, conta a artista Gabriela Canuto Silva.

A experiência também chamou atenção pela forma como foi construída. “Achei muito interessante a abordagem. Foi bem diferente do que é de costume acontecer com esses tipos de formação. Trouxe bastante reflexão para as pessoas”, relata a artista Helena Pandora Cruz de Souza.

Já para a artista Karen Julieth García Galindo, o principal aprendizado esteve nas trocas entre quem já atua no campo da cultura e quem estava começando. “Foi bom ouvir experiências de pessoas que têm uma longa trajetória e também de colegas que participaram da formação. Para além das dicas sobre formulação de projetos, foi importante para pensar a atuação, as parcerias e as estratégias.”

Enquanto essa formação acontecia, parte do grupo mergulhava em um processo imersivo de criação artística. Durante meses, dez projetos foram desenvolvidos a partir de pesquisas de território, encontros coletivos e experimentações em diferentes linguagens, como fotografia, audiovisual, poesia, performance e arte urbana.

O resultado ocupou quatro territórios periféricos de São Paulo (SP); Brasilândia, Grajaú, Paraisópolis e São Mateus; as exposições foram acompanhadas por saraus, oficinas, rodas de conversa e apresentações culturais, fortalecendo espaços comunitários que já atuam nesses territórios e ampliando as conexões entre artistas e organizações locais.

Para quem participou da residência, o impacto foi além da produção das obras.

“Acredito que o maior impacto foi todo o material criado para as exposições e apresentações nos espaços. É algo único, criado a partir de uma vivência coletiva, que dialoga com diferentes realidades e conversa com o público que teve a oportunidade de interagir com as obras”, afirma o artista Adler da Silva Martins.

Na avaliação do artista Hermeson de Morais (Ticano), o projeto ampliou sua compreensão sobre o papel da arte na transformação social. “Além de fortalecer minha atuação cultural, o projeto proporcionou novas conexões, troca de conhecimentos e oportunidades de desenvolvimento, contribuindo para o crescimento da FavelArte Galeria Suburbana e para o fortalecimento das ações culturais no território.”

Essas histórias dialogam diretamente com os impactos identificados pela execução do projeto: fortalecimento de redes entre coletivos, geração de novas oportunidades profissionais, valorização de saberes periféricos e ancestrais e ampliação das ações culturais nos territórios envolvidos.

No livro Arte é Informação foram reunidas entrevistas, reflexões e experiências sobre as relações entre arte, comunicação comunitária e democratização da informação nas periferias brasileiras. A publicação foi lançada durante o circuito de exposições e segue disponível gratuitamente em versão digital.

O Arte é Informação termina deixando um legado que não cabe apenas nas obras produzidas. Ele permanece nas redes criadas entre artistas, organizações e territórios, nas novas possibilidades abertas para quem participou do processo e na certeza de que produzir arte também é produzir conhecimento, fortalecer memórias e ampliar o direito à informação.

Leia o livro Arte é Informação gratuitamente: https://caixadiversidade.enois.org/pagina-manuais/

Para além dos mapas, quais rotas nos conectam?

Ao longo da nossa trajetória, a Énois debateu o território de diversas formas. Durante muito tempo, observamos mapas que delimitam bairros, cidades e regiões, mas fomos percebendo que os territórios são definidos por muito mais do que linhas e fronteiras. Eles são construídos pelas relações que as pessoas estabelecem, pelos caminhos que percorrem, pelos saberes que compartilham e pelas redes que sustentam a vida cotidiana.

Essa compreensão orientou diversos dos nossos trabalhos e também esteve presente na concepção do programa Arte é Informação. Ao observar o mapa do Circuito de Arte Periférica, percebemos algo que ia além da distribuição geográfica das atividades: a força de uma rede formada por diferentes territórios conectados por uma mesma iniciativa.

O que aconteceu durante o circuito ultrapassa qualquer representação cartográfica tradicional. Mais do que ligar pontos em um mapa, o programa colocou em circulação pessoas, conhecimentos, experiências, oportunidades de trabalho e recursos que já existiam nesses lugares, mas que muitas vezes permaneciam isolados ou pouco reconhecidos. Foi essa circulação que revelou uma dimensão importante do desenvolvimento territorial: a capacidade de fortalecer conexões entre comunidades que compartilham desafios, referências e formas próprias de produzir cultura.

Essa dimensão aparece também no relato de Pedro Salvador, um dos artistas comunicadores selecionados pelo programa, que destacou a importância de se conectar com outros territórios para o seu processo criativo. A troca de experiências entre artistas, comunicadores e agentes culturais fortaleceu redes de colaboração capazes de permanecer para além das atividades do circuito.

O desenvolvimento territorial frequentemente é associado a grandes obras, investimentos externos ou transformações na infraestrutura física. Embora esses elementos tenham sua importância, a experiência do Circuito Arte é Informação mostrou outro caminho possível. O desenvolvimento também acontece quando um território fortalece suas próprias redes, valoriza seus agentes culturais e cria condições para que as pessoas possam produzir, trabalhar e se desenvolver onde estão.

Nesse sentido, a arte se apresenta como uma ferramenta de articulação social, geração de renda e construção de futuros possíveis. O circuito demonstrou que iniciativas culturais podem atuar como mecanismos de fortalecimento territorial ao estimular conexões que geram trabalho, circulação de recursos e reconhecimento mútuo entre diferentes comunidades.

Um dos aspectos mais significativos dessa experiência foi a mobilização de artistas que já pertenciam aos territórios participantes. Pyxuá, além de desenvolver seu próprio trabalho, trouxe consigo mais duas artistas. Helena Pandora e Adler Coala seguiram o mesmo caminho. Cada participante ativou redes que já existiam em seus territórios, envolvendo outros artistas, produtores, comunicadores e colaboradores locais.

Esse movimento produziu um efeito multiplicador. Em muitos casos, são profissionais que desenvolvem suas trajetórias criativas há anos, mas que frequentemente encontram mais oportunidades fora de suas comunidades do que dentro delas. O Circuito Arte é Informação ajudou a deslocar essa lógica ao criar oportunidades de trabalho, intercâmbio e visibilidade que partiram dos próprios territórios, em um fluxo periferia-periferia.

Em vez de incentivar a saída, o circuito fortaleceu a permanência. Em vez de buscar referências externas como única fonte de legitimidade, reconheceu o valor dos conhecimentos, das narrativas e das produções já presentes em cada localidade. Mais do que promover encontros, contribuiu para que diferentes territórios periféricos passassem a se reconhecer como parte de uma rede mais ampla de produção cultural.

Essa dinâmica produziu efeitos que vão além da realização de atividades artísticas. Ao contratar artistas locais, envolver fornecedores dos territórios e estimular parcerias entre agentes culturais, o circuito contribuiu para a circulação de recursos dentro das próprias comunidades. Criou-se, assim, uma rede de economia circular da cultura, na qual os investimentos retornam para o território na forma de trabalho, renda, fortalecimento institucional e ampliação das redes de colaboração.

O circuito colocou em movimento  uma rede de circulação de recursos, trabalho, conhecimento e reconhecimento entre territórios periféricos. Nesse sentido, o desenvolvimento territorial observado não se deu pela chegada de agentes externos, mas pelo fortalecimento das conexões já existentes entre comunidades que passaram a trocar experiências, oportunidades e referências entre si.

O impacto não se restringe aos participantes diretos. Ele permanece nas relações construídas, nas parcerias que seguem ativas e na capacidade desses territórios de continuar produzindo, conectando-se e fortalecendo suas próprias formas de existência. O mapa do circuito continua existindo, mas seu principal legado talvez seja justamente aquilo que não aparece nele: as redes, os vínculos e os fluxos que seguem atravessando os territórios muito depois do encerramento das atividades.

Da informação ao desenvolvimento territorial: próximo ciclo da Énois

Em diferentes periferias do Brasil, iniciativas de informação assumem papéis que vão muito além da produção de notícias. Elas contribuem para que moradores e moradoras acessem políticas públicas, fortalecem redes comunitárias, valorizam a cultura local, apoiam empreendedores e criam oportunidades de trabalho para comunicadores dos próprios territórios.

Ao longo de 18 anos, a Énois acompanha essas atuações. E elas nos levaram a uma constatação: territórios mais conectados à informação de qualidade ampliam sua capacidade de acessar direitos, mobilizar pessoas, fortalecer organizações locais e construir soluções para desafios coletivos.

A experiência acumulada nos territórios mostra que a informação não produz impacto apenas no debate público. Ela influencia oportunidades econômicas, fortalece vínculos de confiança e amplia a capacidade de ação e reflexão das comunidades sobre seu próprio futuro.

E é a partir desse aprendizado que a Énois inicia um novo ciclo de atuação.

Nos próximos dois anos, implementaremos Laboratórios de Comunicação e Inovação Social em quatro territórios periféricos do país: Itaquera, em São Paulo (SP); Rio das Pedras, no Rio de Janeiro (RJ); Benguí, em Belém (PA); e Arthur Lundgren I, em Paulista (PE). O trabalho parte de uma pergunta que queremos responder localmente: como o fortalecimento dos ecossistemas locais de informação contribui para o desenvolvimento social e econômico das comunidades?

Para responder com dados e indicadores concretos, apoiaremos organizações locais no mapeamento, articulação e fortalecimento das redes que produzem e fazem circular informação. Redes que incluem o jornalismo, mas que também envolvem cultura, saúde, saneamento, alimentação, justiça climática, educação, lideranças comunitárias, organizações sociais, universidades e poder público.

O fortalecimento do jornalismo continua sendo central para a atuação da Énois. Mas aprendemos que ele não atua sozinho. Em muitos territórios, a circulação da informação depende da articulação entre diferentes atores que constroem relações de confiança e ampliam a capacidade das comunidades de acessar direitos e enfrentar desafios coletivos. É o que chamamos de democracia no cotidiano.

Nossa atuação está voltada para fortalecer essas conexões e produzir evidências sobre seus impactos. Vamos acompanhar indicadores relacionados com geração de renda,  sustentabilidade das iniciativas locais, circulação de recursos e confiança da população em seus próprios ecossistemas de informação.

Esse trabalho acontece em diálogo com o Minha Casa, Minha Vida, uma das maiores políticas públicas do país. A chegada da Caixa Econômica Federal como parceira dessa atuação pelos próximos dois anos representa o reconhecimento da informação como elemento estratégico para a redução das desigualdades e o fortalecimento dos territórios.

Esse novo ciclo se inicia ao mesmo tempo que mudanças também acontecem na nossa estrutura de governança. Distribuímos a gestão da Énois pelas regiões de atuação e assim estaremos ainda mais próximo dos territórios.

Amanda Rahra, fundadora da Énois, assume a presidência da Associação, e Sanara Santos, a vice-presidência. A direção executiva será conduzida por Simone Cunha, no Rio de Janeiro (RJ); a área programática por Jessica Motta, em Belém (PA); o desenvolvimento institucional por Cesar Freitas, em Caruaru (PE); e a área financeira por Victoria Felix, em São Paulo (SP).

A decisão de distribuir a liderança acompanha a própria tese que orienta nosso trabalho: transformações duradouras acontecem quando conhecimento, recursos e capacidade de decisão estão próximos dos territórios e atuam pelo seu fortalecimento.

Nos próximos anos, queremos ampliar o entendimento sobre o papel que a informação desempenha na redução das desigualdades. Nossa aposta é que comunidades mais capazes de produzir, compartilhar e utilizar informação de qualidade também ampliam sua capacidade de gerar oportunidades, fortalecer vínculos, acessar direitos e construir respostas para seus próprios desafios.

Comunidades prosperam quando pessoas, organizações e instituições conseguem atuar juntas em torno de objetivos comuns. A informação, quando conectada aos territórios, ajuda a tornar essa construção possível.

Seguimos fortalecendo a comunicação nos territórios com o desejo de comunidades fortalecidas. 

Amanda Rahra, presidente

Sanara Santos, vice-presidente

Simone Cunha, diretora-executiva

Diretoria da Énois / Julho de 2026

Quando a informação faz parte das políticas públicas de governos locais

Em Alagoas, o governo  decidiu investir em algo ainda pouco comum nas políticas públicas: fortalecer quem produz informação local.

Por meio do Projeto Plural – Incubadora de Jornalismo e Comunicação Comunitária, 150 comunicadores, coletivos, organizações sociais e iniciativas independentes terão acesso à estrutura da rede de Centros de Inovação OxeTech. O objetivo é ampliar a produção de informação em regiões com baixa cobertura jornalística, como periferias, comunidades quilombolas e municípios do interior, além de enfrentar a desinformação.

A iniciativa parte de um diagnóstico importante. Os desertos informacionais não são apenas territórios onde faltam notícias. São lugares onde faltam condições para que a informação seja produzida por quem conhece a realidade local e circule de forma contínua. Ao mesmo tempo, investir em comunicação comunitária significa estimular oportunidades econômicas e sociais, criando trabalho, renda e novas formas de participação cidadã.

Quando uma política pública apoia comunicadores locais, fortalece uma capacidade que já existe nos territórios. São pessoas e organizações que mobilizam redes, aproximam comunidades de direitos, tornam problemas mais visíveis para o poder público e ajudam a construir soluções coletivas.

É uma forma de compreender a comunicação como parte da infraestrutura necessária para o desenvolvimento territorial.

Na Énois, essa visão orienta nosso trabalho há alguns anos.

Desde o Diversidade nas Redações, em 2020, buscamos entender o que acontece quando iniciativas locais de comunicação recebem formação, apoio institucional e financiamento. O impacto vai além da produção de reportagens. Ele aparece no fortalecimento das redes locais, na circulação de informação de qualidade e na capacidade dos territórios de responder aos seus próprios desafios.

Esse aprendizado deu origem aos Laboratórios de Comunicação e Inovação Social, uma atuação de fortalecimento a organizações locais durante os próximos dois anos em Itaquera (SP), Rio das Pedras (RJ), Benguí (PA) e Arthur Lundgren (PE).

Nosso foco será fortalecer organizações que produzem e fazem circular informação sobre sistemas alimentares, segurança alimentar e justiça climática. Já que enfrentar esses desafios depende de organizações conectadas aos territórios, capazes de produzir informação relevante e manter vivas as redes de confiança que sustentam a ação coletiva.

Apoie os Laboratórios de Comunicação e Inovação Social da Énois

Ao longo desse percurso, vamos compartilhar aqui e nos canais da Énois o desenvolvimento dos Laboratórios e acompanhar experiências que, como o Projeto Plural, apontam novos caminhos para fortalecer a comunicação local.

Essas construções mostram que políticas públicas podem criar condições para que esse ecossistema cresça de forma estruturada e integrada às infraestruturas locais. Sua continuidade, porém, também depende de outros arranjos de financiamento.

Por isso, a Énois busca ampliar o apoio recorrente aos Laboratórios de Comunicação e Inovação Social. Cada contribuição ajuda a fortalecer organizações que produzem informação conectada às necessidades de suas comunidades e sustentam uma infraestrutura essencial para a democracia no cotidiano.

Se você acredita que informação também é um bem público, apoie os Laboratórios de Comunicação e Inovação Social.

Faça um PIX para o CNPJ 24.324.132/0001-37 .