{"id":2610,"date":"2024-06-03T22:02:00","date_gmt":"2024-06-04T01:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/enois.org\/?p=2610"},"modified":"2024-06-03T22:02:00","modified_gmt":"2024-06-04T01:02:00","slug":"as-inteligencias-artificiais-vao-acabar-com-o-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enois.org\/en\/as-inteligencias-artificiais-vao-acabar-com-o-jornalismo\/","title":{"rendered":"As intelig\u00eancias artificiais v\u00e3o acabar com o jornalismo?"},"content":{"rendered":"<pre class=\"wp-block-preformatted\">De tempos em tempos, quando uma nova tecnologia \u00e9 criada, surge com ela uma pergunta apocal\u00edptica para o jornalismo.\n\nSe a sua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com a possibilidade de uma m\u00e1quina te substituir enquanto jornalista, fica tranquila. Isso n\u00e3o vai acontecer t\u00e3o cedo. O seu c\u00e9rebro, o seu corpo e a sua viv\u00eancia s\u00e3o bem mais complexos e eficientes que um algoritmo.\n\nExistem cen\u00e1rios sombrios? Sim. Tamb\u00e9m existem muitos questionamentos sobre o impacto do uso das intelig\u00eancias artificiais no ecossistema da informa\u00e7\u00e3o e na pr\u00f3pria democracia \u2013 o que inclui a pr\u00f3pria Internet como a conhecemos e a j\u00e1 aguerrida batalha contra a desinforma\u00e7\u00e3o. \n\nA newsletter Farol Jornalismo fez um \u00f3timo apanhado sobre essas discuss\u00f5es nesta edi\u00e7\u00e3o aqui (para os conte\u00fados em ingl\u00eas, sugiro a tradu\u00e7\u00e3o que o navegador Google Chrome possibilita). \n\nMas de cara, arrisco a dizer que quanto menos nos deixarmos agir pelo automatismo na cobertura e mais exercitarmos um jornalismo focado nas pessoas, que responda \u00e0s perguntas \u00f3bvias que todos os dias o notici\u00e1rio deixa passar, mais distante de sermos assimilados pelas m\u00e1quinas estaremos. Ou de apurarmos e escrevermos como elas.\n\nAfinal, para a pergunta-clich\u00ea-apocal\u00edptica temos tamb\u00e9m a resposta-clich\u00ea-renovadora: de que jornalismo estamos falando? Daquele que reproduz estere\u00f3tipos? Daquele que se baseia numa cobertura cheia de vieses de confirma\u00e7\u00e3o? \n\nDesconfio que nutrir as rela\u00e7\u00f5es de jornalistas com suas comunidades, fazer de dentro para dentro, nas favelas, periferias e interiores do pa\u00eds, \u00e9 o que pode garantir n\u00e3o s\u00f3 a integridade da informa\u00e7\u00e3o, mas a confian\u00e7a de que essa informa\u00e7\u00e3o vem de algu\u00e9m que vive e conhece aquele territ\u00f3rio. Al\u00e9m disso, \u00e9 o que pode fortalecer a pluralidade de fontes de informa\u00e7\u00e3o na Internet, das quais as pr\u00f3prias intelig\u00eancias artificiais se alimentam e reproduzem. \n\n\"A intelig\u00eancia artificial \u00e9 um grande algoritmo de rede neural que analisa um grande volume de dados do que tem na internet\u201d, explicou Ros\u00e2ngela Menezes, jornalista e fundadora da Awal\u00e9, na \u00faltima Reda\u00e7\u00e3o Aberta. \u201cNa verdade, a gente tem, como comunicadores, o desafio de produzir mais conte\u00fado focado em quebrar estere\u00f3tipos. \u00c9 atrav\u00e9s dessa produ\u00e7\u00e3o que n\u00f3s, enquanto rede de jornalistas, poderemos em algum momento, l\u00e1 na frente, fazer o ChatGPT identificar n\u00e3o-estere\u00f3tipos. Na Awal\u00e9, por exemplo, a gente s\u00f3 fala de mulheres negras e ind\u00edgenas\".\n\nPois \u00e9. Vamos lembrar que a Internet e seus algoritmos se conformam dentro do mundo em que vivemos. O ChatGPT, por exemplo, se baseia muito em formas de textos e imagens comuns em culturas angl\u00f3fonas, euroc\u00eantricas, masculinas e brancas.\n\nToma a\u00ed mais um clich\u00ea: talvez as intelig\u00eancias artificiais estejam a\u00ed pra nos lembrarem da import\u00e2ncia daquilo que nos torna humanos. Nada mais humano que a diversidade e a complexidade.\n\nDito isso, tamb\u00e9m \u00e9 importante reconhecer a pot\u00eancia que o desenvolvimento das intelig\u00eancias artificiais trazem para esse jornalismo que \u00e9 produzido a partir e para as periferias do Brasil, sejam elas periferias territoriais, raciais ou de g\u00eanero.\n\nEm contextos de poucos recursos financeiros e humanos, ter uma ferramenta para auxiliar gratuitamente cada profissional de uma organiza\u00e7\u00e3o, em diversas tarefas simult\u00e2neas, \u00e9 um ganho e tanto.\n\n\"A gente n\u00e3o tem o tempo e nem o privil\u00e9gio de outros grupos e pessoas que j\u00e1 aprovam grandes projetos t\u00eam, de ir pra uma casa de praia escrever projetos de l\u00e1\u201d, compartilhou Yane Mendes, da Rede Tumulto, que fica no Recife, na \u00faltima Reda\u00e7\u00e3o Aberta. \u201cA gente de favela escreve projeto no meio do \u00f4nibus, nas correrias do dia a dia. Isso da gente ficar dizendo que n\u00e3o consegue usar o ChatGPT, a gente t\u00e1 replicando o que a branquitude quer. N\u00e3o \u00e9 sobre capacidade. Quem domina a ferramenta sai na frente e tem o privil\u00e9gio nessa corrida de acessos a recursos\".\n\nPara come\u00e7ar, se voc\u00ea trabalha com informa\u00e7\u00e3o e trabalho criativo, \u00e9 preciso estabelecer alguns limites para voc\u00ea, sua equipe e seu p\u00fablico.\n\n\"Nossa maior preocupa\u00e7\u00e3o foi como garantir a credibilidade para o nosso leitor\u201d, explica Lucas Maia, jornalista e s\u00f3cio-diretor da Ag\u00eancia Tatu, uma equipe de comunica\u00e7\u00e3o de Alagoas, focada em jornalismo de dados, inova\u00e7\u00e3o no jornalismo e jornalismo investigativo. \u201cA gente criou uma pol\u00edtica de uso de IA na reda\u00e7\u00e3o. A m\u00e1quina \u00e9 uma ferramenta, e a responsabilidade de tocar um ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 dos jornalistas. Nunca vamos culpar o erro na m\u00e1quina. Quando a gente errar, a gente errou\".\n\nNa Awal\u00e9, startup de impacto social que d\u00e1 treinamento para mulheres negras e ind\u00edgenas e tem sede em Santa Catarina, o caminho foi parecido. Ros\u00e2ngela conta que passaram a ter um uso bastante orientado do ChatGPT para n\u00e3o perderem a qualidade no conte\u00fado, que tem a premissa de ser escrito de humanos para humanos. \n\n\"\u00c9 o que eu vendo, todo mundo que escreve na Awal\u00e9 \u00e9 jornalista. Ent\u00e3o tivemos todo um trabalho com a equipe pra entender como usar. Toda vez que a gente tem uma freelancer nova trabalhando com a gente, temos esse trabalho de apresentar os limites e orientar o uso. A gente n\u00e3o usa nas redes sociais, por exemplo, porque em todos os testes que fiz com o ChatGPT, nenhum teve um retorno satisfat\u00f3rio com o que a gente entrega nas nossas redes sociais\".\n\nSeja para automatizar tarefas repetitivas ou ajudar com o pensamento criativo de um conte\u00fado, as intelig\u00eancias artificiais precisam que voc\u00ea d\u00ea comandos bem explicados, objetivos. Voc\u00ea pode escrever do jeito que fala, \u00e9 at\u00e9 melhor. Mas provavelmente vai precisar de algumas tentativas at\u00e9 chegar a uma resposta satisfat\u00f3ria da ferramenta. Isso porque \u00e9 preciso saber direcionar bem seu pedido. Se estiver dando muito trabalho, bom, a\u00ed a gente volta pro come\u00e7o: a m\u00e1quina n\u00e3o vai saber fazer o que s\u00f3 voc\u00ea pode.\n\nNuma conversa que tive com Lucas e Ros\u00e2ngela para a realiza\u00e7\u00e3o da \u00faltima Reda\u00e7\u00e3o Aberta, Lucas comentou sobre a diferen\u00e7a entre os resultados de uma imagem que ele e o designer da Tatu pediram para a intelig\u00eancia artificial produzir. A do designer foi infinitamente melhor, dizendo ele, pelo pr\u00f3prio conhecimento que o profissional carrega.\n\nRe\u00fano aqui algumas dicas compartilhadas por Ros\u00e2ngela e Lucas. Para mais detalhes e para continuar as reflex\u00f5es sobre o tema, confira a grava\u00e7\u00e3o completa do nosso encontro sobre intelig\u00eancia artificial como ferramenta de apoio nas reda\u00e7\u00f5es.\n\n1. Produ\u00e7\u00e3o de roteiro de eventos: quando inserimos o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f5es, melhor o ChatGPT responde. Descreva o tema do evento, o perfil das ou dos palestrantes, moderadoras ou moderadores, o objetivo do evento e pe\u00e7a para o ChatGPT perguntar A ideia n\u00e3o \u00e9 copiar exatamente a proposta, mas usar as informa\u00e7\u00f5es como guia, principalmente se voc\u00ea n\u00e3o tem experi\u00eancia em realizar eventos de debate.\n\n2. Resumo de editais: copie e cole o texto do edital no ChatGPT. A ferramenta vai resumir. Depois, voc\u00ea pode fazer v\u00e1rias perguntas pro ChatGPT sobre este edital, como quem pode ou n\u00e3o participar, qual o prazo, etc. Essa utilidade pode ser especialmente \u00fatil quando se tem v\u00e1rios editais para ler.\n\n3. Formata\u00e7\u00e3o de tabelas de PDFs: esse uso \u00e9 \u00f3timo para jornalistas que trabalham na apura\u00e7\u00e3o de dados fornecidos em tabelas dentro de PDFs. Voc\u00ea copia as informa\u00e7\u00f5es da tabela no PDF, cola no ChatGPT e pede para que a intelig\u00eancia artificial produza uma tabela com aquelas informa\u00e7\u00f5es. Pronto, agora \u00e9 s\u00f3 copiar e colar para uma planilha, por exemplo.\n\n4. Sugest\u00e3o de pautas: contextualize sobre o que se tratam as informa\u00e7\u00f5es fornecidas na tabela anterior e pe\u00e7a para que o ChatGPT d\u00ea sugest\u00f5es de pauta. De novo, a ideia n\u00e3o \u00e9 seguir exatamente o que a ferramenta prop\u00f5e. Fa\u00e7a uma an\u00e1lise cr\u00edtica e utilize as refer\u00eancias para desenvolver suas pautas.\n\nSe quiser continuar essa conversa, responda a esse e-mail! Vou adorar saber o que voc\u00ea pensa sobre o assunto.\n\nAt\u00e9 mais!<\/pre>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De tempos em tempos, quando uma nova tecnologia \u00e9 criada, surge com ela uma pergunta apocal\u00edptica para o jornalismo. 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