
Apresentação de Adler Coala durante o Circuito de Arte Periférica (foto: Luan Batista/Énois)

Livros Arte é Informação (foto: Luan Batista/Énois)
Nos dias 23 e 24 de maio deste ano, estivemos nas periferias de São Paulo realizando o Arte é Informação e promovendo, principalmente, articulação territorial que fortalece um ecossistema coletivo construído pelo próprio povo, pelas próprias pessoas. Um ecossistema que favorece políticas públicas que nascem da vida cotidiana, gera conhecimento, mantém vivas tecnologias ancestrais e sociais, fortalece a articulação entre territórios e impulsiona também o desenvolvimento territorial.
Tudo isso porque promove a conexão de artistas com seus territórios, com iniciativas e organizações das suas comunidades e também entre si.
O que a Énois faz como organização é colocar vírgulas nas histórias dessas pessoas. Porque a transformação social não termina — e nem acontece só por meio de um projeto. Ela se constrói ao longo de uma vida: pelos encontros, pela provocação de ideias, pela abertura de caminhos e possibilidades que vão se desenhando em novos nós e conexões estabelecidos em cada vírgula, em cada recomeço de projeto.
É assim que a Énois caminha há 17 anos, permitindo que jovens produtores de cultura, comunicadores e artistas construam para si histórias diferentes do padrão. Histórias carregadas de sonhos.
Por isso, os impactos da Énois não são apenas matemáticos ou quantitativos. Os resultados não são só produtos: são vidas. Vidas transformadas ao longo de processos que começam, mas não terminam com um projeto. Porque tudo é começo, meio começo, como ensina Nêgo Bispo.
No Arte é Informação, por exemplo, que começou no ano passado, a Nara — artista e comunicadora participante do projeto — sonhou com uma exposição que nem imaginava ser possível realizar. E realizou.
Nara, que foi da última turma da Escola de Jornalismo da Énois e hoje atua como jornalista na Agência Mural, também levou para o trabalho da exposição fotográfica o Prato Verde Sustentável, que começou como um projeto de hortas pedagógicas, em 2013, e hoje é uma ONG que promove segurança alimentar e ambiental nas periferias de São Paulo. Um projeto que já havia sido mapeado no Prato Firmeza Preto, em 2020.

Nenhuma pessoa que é comunicadora, artista ou produtora cultural e vive na periferia é só isso.
Ser artista na periferia não é apenas no sentido estético, contemplativo ou conceitual. Ser artista é fazer da própria vida uma invenção. Uma inovação. É ser criativo e construir para si uma realidade diferente daquela que o sistema quer impor às pessoas.
É também fortalecer quem anda junto, porque ninguém anda sozinho na periferia.
Por isso Pyxuá, além de desenvolver seu próprio trabalho, trouxe consigo mais duas artistas. Por isso Helena Pandora também fez o mesmo. Assim como Adler Coala.
É nesse movimento que a Énois atua: fortalecendo esses ecossistemas. Fortalecendo pessoas para que elas fortaleçam suas redes — e para que essas redes se ampliem nas conexões entre organizações dos territórios.
Para que o Arte é Informação seja mais uma vírgula de conexão na história entre PiPa e Prato Verde Sustentável, ambos com sede na zona norte de São Paulo.
Para que essa ação seja mais um impulso — e também uma celebração — na história de vida que essas pessoas estão construindo juntas.
Tudo isso enquanto, em Brasília, as leis ambientais vêm sendo desmontadas. Em ano eleitoral, provavelmente as pautas da segurança alimentar, do clima e do meio ambiente não serão amplamente debatidas, ainda que estejamos vivendo uma emergência que já não permite mais adiamento.
Há coisas que não serão feitas — e que já não estão sendo feitas. E, por isso, muitas pessoas vão sofrer. Principalmente aquelas que estão buscando, na criatividade — seja artística ou cotidiana — construir uma realidade diferente.
Enquanto lá acontece o desmanche, a gente segue aqui imaginando futuros possíveis a partir da realidade concreta das coisas.
Foi isso que fizemos com o Arte é Informação. E é isso que seguiremos fazendo junto com Travas da Sul, PiPa, FavelArte, São Mateus em Movimento e tantas outras organizações parceiras.
Pra enfrentar juntos as chuvas com uma sopa quentinha de mandioca com couve. Com receita de manejo nascida em Parelheiros, cultivada no Grajaú, reverberada no Jardim Filhos da Terra.
Com conhecimento que não é novo — é muito antigo. Às vezes esquecido.
Com um valor que não vem de fora.
É tão de dentro quanto o umbigo que, um tempo atrás, alguém plantava no quintal.