Quando pensamos em desinformação nas eleições, é comum que a resposta comece pela checagem de fatos, pelos acordos com plataformas digitais, pela remoção de conteúdos falsos ou por ferramentas capazes de identificar e interromper sua circulação. São estratégias importantes, especialmente diante da velocidade com que uma informação pode se espalhar. Mas elas também nos levam a uma pergunta anterior: o que faz uma pessoa confiar em uma informação?
A desinformação tem mais dificuldade de chegar a um território em que a confiança nas instituições, no jornalismo e nas formas diversas de produção de conhecimento está intacta. Ela circula em um ambiente em que essa confiança já foi, de alguma maneira, desgastada. O pesquisador Yurij Castelfranchi, da UFMG, chama atenção para esse processo ao falar em “fabricação da ignorância”. Não se trata apenas de fazer alguém acreditar em uma mentira, mas também de enfraquecer a confiança em quem produz e valida conhecimento.
Essa perspectiva ajuda a olhar de outra maneira para um fenômeno que vem sendo discutido no jornalismo: o afastamento das notícias. Quando uma pessoa deixa de acompanhar o noticiário, é fácil interpretar isso como falta de interesse pela política ou pela vida pública. Mas e se parte desse afastamento também tiver relação com a distância entre a informação produzida e a vida de quem deveria recebê-la? O que acontece quando o jornalismo não é reconhecido como uma referência para compreender aquilo que está acontecendo ao nosso redor?
Essa distância pode ser ainda maior em territórios onde a cobertura jornalística é escassa ou pouco conectada às questões locais. E é justamente aí que experiências de comunicação comunitária e jornalismo independente nos ajudam a pensar em outras possibilidades. Não como uma solução isolada para a desinformação, mas como formas de construir proximidade, criar referências e fortalecer redes pelas quais a informação pode circular com mais sentido e confiança.

É isso que nos interessa observar quando olhamos para experiências como a do Portal Assobiar, em Imperatriz, no Maranhão. O veículo produz jornalismo independente e também tem experiência em produzir oficinas de educação midiática para comunidades. Assim, coloca direitos humanos, cultura e meio ambiente no centro da cobertura. São temas que não aparecem apenas como assuntos de uma pauta, mas como parte da vida de quem está naquele território. A produção local, junto do trabalho de articulação, nesse caso, também ajuda a preencher vazios de informação e a construir referências próximas para quem precisa entender o que acontece ao seu redor.
Essa proximidade também pode aparecer na linguagem. No interior de Pernambuco, a experiência do projeto Solte sua Voz, ligado à UFPE, nos chama atenção justamente por experimentar outras formas de fazer a informação chegar às pessoas. Em uma das experiências, a radionovela foi utilizada para abordar temas de interesse público a partir de personagens ligados à tradição junina. Em vez de simplesmente transmitir uma orientação, a informação era pesquisada e apurada e depois transformada em uma narrativa ficcional, distribuída por rádio, WhatsApp e plataformas digitais.
O que existe aí não é uma escolha entre informação rigorosa e linguagem popular. É justamente a combinação das duas coisas. A apuração continua sendo fundamental, mas a forma de contar também importa. Uma informação pode estar correta e, ainda assim, não encontrar espaço na vida cotidiana de quem a recebe. A experiência das radionovelas mostra uma possibilidade diferente: transformar uma informação pública em uma história que as pessoas reconhecem, querem ouvir e podem compartilhar.
No caso da radionovela Santos Conectados no Combate à Covid-19, analisada por Mesquita e Moraes (2023), a produção partiu de uma tradição central para a vida da comunidade, o São João, para falar sobre prevenção, isolamento e violência doméstica durante a pandemia. A escolha dos santos juninos e de uma linguagem próxima dos fiéis foi uma escolha de estratégia narrativa que permitiu que questões urgentes fossem discutidas a partir de referências já presentes no cotidiano da população, especialmente entre grupos em situação de maior vulnerabilidade. A experiência também se desdobrou em Santos na Rota da Vacina, mostrando como esse vínculo poderia ser continuado para responder a novas necessidades de informação.
Esse ponto também muda o jeito como pensamos o letramento midiático. Ensinar alguém a identificar uma notícia falsa é importante, mas talvez seja pouco se essa for a única habilidade construída. Reconhecer fontes confiáveis, entender como uma informação circula, saber onde buscar respostas e desenvolver repertório para participar da vida pública também fazem parte desse processo.
Em Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, a Agência Lume trabalha justamente a partir dessa perspectiva. Entre suas experiências estão jogos para discutir política com estudantes de escolas públicas e encontros de memória com moradores do território. Em vez de começar pela definição abstrata de conceitos políticos, as atividades partem de relações, histórias e questões que fazem parte daquele lugar. A política aparece conectada à vida cotidiana, à memória do bairro e às experiências de quem vive ali.


Para nós, essa experiência traz uma questão importante: informação não é sinônimo de participação. Uma pessoa pode saber quem são os candidatos, conhecer uma proposta ou receber uma checagem e, ainda assim, não perceber como aquilo se relaciona com sua própria vida. Entre saber e participar existe um caminho que passa por vínculo, pertencimento e pela possibilidade de enxergar a política dentro do território.
Isso significa, por exemplo, pensar ações presenciais para compartilhar informações sobre como funciona o processo eleitoral e sobre quais são as responsabilidades de cada cargo. Agora, nós começamos a colocar em movimento o trabalho coletivo dos Laboratórios de Comunicação e Inovação Social em Territórios Periféricos, a partir do desafio de criar condições para efetivar o acesso à informação sobre o processo eleitoral e política a jovens.

Essa diferença parece pequena, mas muda bastante a estratégia. Noticiar ou divulgar uma questão política é uma ação pontual. Construir vínculo é um processo. E esse processo não começa no período eleitoral. Ele acontece quando uma organização está presente no bairro, quando um comunicador conhece as pessoas que acompanha, quando uma escola cria espaço para discutir política, quando uma rádio local traduz uma informação para uma linguagem próxima ou quando um veículo independente decide contar uma história que dificilmente apareceria nos grandes centros de mídia.
A checagem pode desmontar uma informação falsa. Mas quem ajuda a criar as condições para que uma pessoa reconheça aquela informação como confiável? Acreditamos que parte dessa resposta esteja nas redes que já existem. Jornalistas, comunicadores comunitários, escolas, universidades, coletivos culturais e organizações locais produzem e fazem circular informação todos os dias. Muitas vezes, são eles que conhecem os códigos, as histórias e as urgências de um território. São também espaços onde as pessoas podem perguntar, discordar, voltar a conversar e construir repertório.
É essa rede que fortalecemos quando falamos em inovação social. Para a Énois, inovação não precisa significar uma nova ferramenta tecnológica ou uma solução mais rápida para detectar uma mentira. Pode significar encontrar uma maneira diferente e efetiva de fazer uma informação circular e fazer sentido para uma comunidade.
As experiências do Portal Assobiar, do Solte sua Voz e da Agência Lume são diferentes entre si. E é justamente por isso que nos interessam. Elas mostram que não existe um único formato para aproximar informação e território. Existe uma diversidade de práticas que partem da escuta, da cultura local, da presença e das relações que já estão construídas.
Não temos uma resposta pronta. Temos experiências para observar, organizações para escutar e um campo inteiro para construir esse debate junto. Porque, antes de desmontar uma mentira, talvez seja preciso construir o lugar onde a verdade possa ser ouvida.